terça-feira, 19 de julho de 2016

"As árvores", Hermann Hess

Hermann Hess
“Para mim, as árvores são os pregadores de fala mais penetrante. Eu as reverencio por viverem em tribos, famílias, em florestas e bosques. E ainda mais as reverencio por se manterem de pé sozinhas. Elas são como pessoas solitárias. Não como eremitas que se escondem de algumas fraquezas, mas como grandes e solitários homens como Beethoven e Nietzche. Em seus mais altos ramos, o mundo farfalha. Suas raízes descansam no infinito, mas elas não se perdem de si mesmas ali, elas lutam com todas as forças de suas vidas por uma coisa apenas: preencher a si mesmas em acordo com suas leis, construindo e erguendo suas próprias formas que melhor representem o que elas verdadeiramente são. Nada é mais sagrado, nada é mais exemplar que uma bela e forte árvore. Quando uma árvore é cortada e revela seu tronco nu e cortado ao sol, alguém pode ler sua história no luminoso e inscrito disco do seu tronco: nos anéis, seus anos, suas cicatrizes, todos os seus esforços, todos os seus sofrimentos, todas as suas doenças, toda a felicidade e prosperidade ali, verdadeiramente escritas, tempos de escassez entremeados nos tempos fartos, os ataques que suportou e as tempestades a que resistiu. E todo o jovem fazendeiro sabe que a mais rara e nobre madeira, tem os anéis mais apertados, que a altura das montanhas e seus permanentes perigos, no que têm de mais indestrutível e forte, dão as condições ideais para o seu crescimento.
Árvores são santuários: quem quer que saiba falar com elas, ouví-las, pode aprender a
A Árvore da Vida, Klimt (1909)
verdade. Elas não pregam lições e preceitos. Elas pregam, sem temer particularidades, as antigas leis da vida.
Uma árvore diz: um grão está escondido em mim, uma faísca, um pensamento, eu sou vida, da vida eterna. A tentativa e o risco da mãe eterna me conceber é única, única na textura e veias da minha pele, única no menor brincar das folhas nos meus ramos, única na menor das cicatrizes na minha casca. Eu fui feita para dar forma e revelar o eterno no menor dos meus mais especiais detalhes.
Uma árvore diz: minha força é confiável. Eu não sei nada sobre os meus pais, não sei nada sobre as centenas de crianças que todo ano saltam de mim. Eu trago à vida, os segredos contidos nas minhas sementes à sua mais última finalidade e não me importo com nada mais. Eu confio que Deus está em mim. Eu confio que meu trabalho é sagrado. Tudo o que vem desta confiança, eu vivo.
Quando somos atacados e não podemos mais afirmar nossas vidas, então uma árvore tem algo a nos dizer: Acalme-se! Acalme-se! Olhe pra mim! A vida não é fácil, a vida não é difícil. Estes são pensamentos infantis… Seu Lar não é aqui ou lá. Seu Lar está dentro de você ou não está em nenhum lugar.
Meu coração anseia soltar suas lágrimas quando ouço o farfalhar nas àrvores à janela durante a noite. Se alguém ouví-las silenciosamente por um bom tempo, o anseio revela seu grão – sua essência, e seu significado. Isso não é tanto uma maneira de fugir do sofrimento de alguém, ainda que pareça. Isso é o anseio por um lar, pela memória da mãe, por novas metáforas da vida. Isso leva ao lar. Cada jornada conduz de volta ao lar, cada passo é um nascimento, cada passo é uma morte, cada sepulcro é uma mãe.
Então, a árvore farfalha à noite quando nos colocamos desconfortavelmente diante dos nossos pensamentos infantis. Árvores têm duradouros pensamentos, duradouros e restauradores respirares, e tão duradouras suas vidas quanto são as nossas. Elas são mais sábias do que nós somos, até que comecemos a ouví-las. Mas quando aprendemos a ouvir as árvores, então, a brevidade, a rapidez, a inocência precipitada dos nossos pensamentos encontrarão incomparável alegria. Quem quer que aprenda a ouvir as árvores, acaba querendo ser como as árvores: não irão querer ser outra coisa senão o que realmente são. Aí está o Lar. Aí está a felicidade.”  
Herman Hesse

domingo, 27 de março de 2016

O real sentido da Páscoa

A Páscoa é uma festa repleta de imagens fortes e marcantes. 

  • No hemisfério sul, ela ocorre no outono, no primeiro domingo após a primeira lua cheia. A Páscoa é sempre comemorada no domingo, mostrando uma relação com o Sol, astro que rege esse dia da semana, mas também tem relação com a Lua cheia, lembrando que a lua não tem luz própria, apenas reflete a luz do sol.
  • Antigamente ela acontecia apenas no hemisfério norte, na época da primavera, quando as pessoas ainda tinham grande relação com as forças da natureza. Naquela época, sobreviver ao rigor do inverno era um grande desafio, e chegar à primavera era motivo de grande celebração. Era nesta época do ano que a vida recomeçava, as cores retornavam, tudo desabrochava. Era a vitória da vida sobre a morte!
  • A palavra Páscoa, vem do hebraico, PESSACH, que significa passagem. Quando Moisés desafiou o faraó e conduziu seu povo rumo à Terra Prometida libertando-os da escravidão. Neste fato histórico, mais uma vez ocorreu a vitória da vida sobre a morte.
  • Na tradição cristã, a Páscoa novamente ocupa uma importância fundamental. Após os quarenta dias da quaresma e depois de refletir sobre os acontecimentos vivenciados por Jesus Cristo durante a Semana Santa, os cristãos comemoram, no domingo de Páscoa, a glória da ressurreição de Cristo.
  • Outra imagem, que claramente mostra a ideia de vida, morte e ressurreição é a metamorfose da lagarta em borboleta, representando a morte do corpo, a transformação e o renascer. A imagem arquetípica da borboleta que, quando lagarta, fecha-se num escuro casulo deixando a luz e o calor transformarem sua existência em cor e leveza!
  • O coelho e os ovos também possuem um significado especial nas comemorações pascais. O ovo representa uma vida interior, ainda em estado germinal, que se desenvolve, rompe uma casca dura e em seguida desabrocha em sua plenitude. O coelho, por sua vez, representa um animal puro, digno de carregar e trazer os ovos da Páscoa. Além disso, é um animal muito fértil, que se reproduz com facilidade.



Feliz Páscoa 2016

Devemos vivenciar a possibilidade de deixar morrer em nós o que não queremos mais, o que já não nos serve, e também permitimos que o novo em nós possa florescer.

Devemos ter claro dentro de nós a possibilidade da vida, morte e ressurreição de hábitos, atitudes e modos de pensar, para nos tornarmos pessoas melhores e mais sensiveis. 

Se tivermos consciência da necessidade de cada um realizar este exercício interior, podemos, então, resgatar o real sentido da Páscoa!

Lembrando que há casal!

Para o casal se lembrar que é casal, ainda, depois do trabalho, das miúdas e miúdos, da casa, da roupa, do voluntariado, dos amigos, das discussões e dos sorrisos, há pequenos nadas que podemos usar!
Duas ou três dicas, por exemplo:
1. Quando estão chateados façam uma guerra de almofadas; deitam a raiva e agressividade fora e ainda arrancam uma gargalhada!
2. Escrevam bilhetes um ao outro e deixem em vários sítios da casa.
3. ataque de cócegas!
4. Durante 1 dia só podem dizer coisas boas, elogios e reconhecimentos, um ao outro e do outro. E enviem mensagens: "Gosto de ti porque..."
Cá em casa estão nos espelhos colados com fita-cola, no frigorífico e na entrada (ou saída) de casa, num quadro de ardósia.

Como são as vossas estratégias?!

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Birras que se fazem a dois!

Ontem fiz uma birra das grandes, daquelas horríveis.
Dei por mim a pensar no que tinha acontecido, no que tinha dito... e andei com um pensamento todo o dia, proverbio sueco "Ama-me mais quando menos merecer, que é quando mais preciso.

Contextualizando: quando se pede alguma coisa à Popotinha que quebra a linha de intensões que tem para os próximos momentos da vida dela, ela reage com raiva e zanga.
Coisas do tipo: "Anda jantar!", ou "Veste-te primeiro!". A resposta tem sido arrasadora para mim: "Tu és má!", lavada em lágrimas, e gritos.
Ora ontem não consegui digerir nem reagir da melhor forma.

Faz-me sentido desabafar, mas também desmontar isto.
Quando falei com ela, à noite, antes de dormir, retive duas coisas que comentou comigo: "Não sei dizer as coisas, às vezes! E eu queria mesmo acabar de ver aqueles bonecos." e pediu-me afincadamente "Mamã, respira. Tens de respirar mais."

Simples! Vê aqui a estratégia de "3 Step/Minutes Breathing Space"!

Na verdade eles ainda não reconhecem as emoções, não têm vocabulário para falar sobre elas, para saber canalizar e gerir. 
Mas reparem, a frase "És má!" é um ataque ao ego. Nós ficamos profundamente magoados, irados, tristes, frustrados... 
Agora imaginem o que isto faz na auto-estima, imagem e ego de uma criança quando se lhe dirigimos com sermões do tipo "És mentiroso. És um bruto. Assim não te deixo fazer nada. Não confio em ti... És mau! És mesmo mau.
Quais são as tuas intensões para com a educação do teu filho? O que ele aprende com isto? Vale a pena reposicionarmo-nos!
Na maioria das vezes estamos a referirmo-nos a comportamentos que tiveram e não a eles. A atitude e a forma é que deve ser redirecionada.

Se conseguirmos ter isto em mente, se efetivamente, respirarmos, e conseguirmos ter 3 segundos ou até menos, conseguimos agir de forma diferente.
  • Reconhecer a emoção
  • Como é que ela te faz sentir
  • E só depois, só depois ... redirecionar e explorar outras formas de agir, de lidar.

Lembra-te

Partilho ainda um texto de uma mãe, que conta a sua reação depois do filho ter tido um ataque de raiva e acabou por partir um espelho. Vê aqui!

Vamos aprendendo, maravilhosas partilhas.

domingo, 3 de janeiro de 2016

"...um Ser Humano!"


"...um herói e um mártir não é um protótipo abstrato nem um modelo de perfeições, mas sim um ser humano, feito de contradições e de contrastes, fraquezas e grandezas, dado que um homem, como escreveu José Enrique Rodó, 'é muitos homens', o que quer dizer que anjos e demónios se misturam na sua personalidade de maneira intricada."


"... como prova de que é impossível chegar a conhecer de forma definitiva um ser humano, totalidade que escorrega sempre de todas as redes teóricas e racionais que tentam capturá-la." 



(Mario Vargas Llosa, in 'O Sonho do Celta')

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Ano Novo


Ano Novo
Ficção de que começa alguma coisa!
Nada começa: tudo continua.
Na fluida e incerta essência misteriosa
Da vida, flui em sombra a água nua.
Curvas do rio escondem só o movimento.
O mesmo rio flui onde se vê.
Começar só começa em pensamento.

                                   (Fernando Pessoa)


sábado, 14 de novembro de 2015

As Crianças

E uma mulher
que trazia um menino ao colo
disse:

- Fala-nos das Crianças.

E ele respondeu:

- Os vossos filhos
não são vossos filhos:
são filhos e filhas
do chamamento da própria Vida.

Vêm por vosso meio
mas não de vós;
e apesar de estarem convosco,
não vos pertencem.

Podeis dar-lhes o vosso amor;
mas não os vossos pensamentos:
porque eIes têm pensamentos próprios.

Podeis acolher os seus corpos;
mas não as suas aImas:
porque as suas aImas
habitam a casa de amanhã
que não podeis visitar,
nem sequer em sonhos.

Podeis esforçar-vos por ser como eles;
mas não tenteis fazê-los como vós.

Porque a vida não vai para trás,
nem se detêm com o ontem.

Sois os arcos, e os vossos filhos
as setas vivas projectadas.

O Arqueiro vê o alvo no caminho do infinito,
e reteza-vos com o seu poder
para que as setas
possam voar depressa para longe.

Que a vossa tensão na mão do Arqueiro
seja de alegria.

Porque assim como Ele gosta
da seta que voa,
também gosta do arco que fica.


                                             (Khalil Gibran, in 'O Profeta')