terça-feira, 28 de maio de 2019

A dúvida!

Há alturas em que a vida é sentida como mais difícil, que não temos tempo, que fazemos só asneiras, porque nem Estar nós conseguimos.

Se a vida é dificil?! Não!!
Nós complicamos, porque já estamos altamente envolvidos com um conjunto de crenças que instalámos, com o superego enorme, com expectativas e afins!
E às vezes, duvidamos!

A dúvida!
Essa miúda que vem vindo, pomposa e maravilhosa pela rua fora, e atrás dela vem a tristeza, a raiva e o medo, e grudam em nós com um abraço apertado, quase aconchegante!

Às vezes fechamo-nos demasiado na concha, mas às vezes também é preciso assumir essa responsabilidade!

É o outro lado da unidade!


quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Sons em Família

Há uns bons tempos (pelo menos, desde que a Pinipon nasceu) que a vida emocional da Popotinha se alterou. Demorei muuuuiiito tempo a integrar isto. Uma coisa é entender isto de forma racional, dos típicos ciúmes de irmão e ver qual a melhor forma de lidar, com aquelas estratégias que lemos e relemos e fazemos... Outra completamente diferente, é o sentimento que nos abala... a injustiça perante um que acaba de chegar versus a dor da alma do outro que sente que lhe tiraram um pedaço de chão, que ainda por cima não estava conquistado.

A dualidade de sentimentos existia em mim e na Popotinha. A Pinipon nasceu com uma irmã. Dado adquirido! A Popotinha nasceu única, fez-me mãe e gostava desse posto!
A dualidade de gostar da irmã e saber que ela veio ocupar espaço, um espaço que era dela... gostar da irmã, mas só a mãe lhe dava leite... Passou a dizer "Eu sou filha do pai, a Pinipon é tua filha!" A dor que a Popotinha tinha!

Comecei a sentir que já nem eu sabia lidar com isto. Como a ajudar!? Como ajudar-me?!

Volvidos 2 anos e meio, pedi ajuda à linda Silvia Catarina Santos e pedi uma sessão unifamiliar de "Sons em Família"! Vejam aqui!

O carinho da preparação da sessão!
Quero partilhar o meu testemunho! Acho importante escrevê-lo, no sentido em que reitero a necessidade, a fabulosa mudança, subtil e respeitadora de cada um, de cada processo, de perceber que foi a partir daqui, com esta ajuda, que muita coisa se tornou mais fácil e fluiu.

A sessão é uma verdadeira delícia, de jogos e brincadeiras, onde a criatividade surge sem julgamentos, a curiosidade fazem os deleites de pais e filhos e as ligações tornam-se mágicas. Sabemos lá nós, que cada célula está a ser nutrida, mexida na vibração que deve estar, fortalecendo cada grama do nosso ser e capacitando-nos para a co-existência com os nossos.

Depois de algum tempo, quase como um período de incubação necessário para a borboleta nascer, eis que renasceu uma nova forma de estar e existir, permitindo-se Ser.

Por um lado, a Popotinha começou a verbalizar. Começou a explicar-se e a dizer que não queria a Pinipon ao pé dela, que gostava que ela passasse mais tempo com a avó para ficar com os pais, e mais tarde começou mesmo a pedir expressamente para fazer programinhas só comigo. O facto de ter colocado por palavras aquilo que sentia, e não sentiu julgamento da nossa parte, mas compreensão e contensão, favoreceu em muito o processo dela. Ouvia-se a ela própria!

Por outro lado, senti que eu já não julgava e não tentava conter, falando na importância da partilha e no mau trato que fazia com a irmã, mas sim em plena compreensão e aceitação do seu processo de reconquista e reposicionamento no espaço, que agora é ocupado por mais um. Também me ajudou, no sentido de dizer o que tinha a dizer num momento que não se estendia mais no tempo e no espaço. Deixei de ficar com birra, envolta no mesmo registo durante muito tempo, e larguei a culpa que sentia com isso. Uma pescadinha de rabo na boca.

Em jeito de conclusão, pretendo agradecer à Silvia a sua disponibilidade, a paciência para com a Popotinha, que sentiu bem o som a vibrar em cada célula, e a mim pela abertura que tive de compreender que precisava de ajuda, de compreender o processo por trás da estética, e refletir e sentir verdadeiramente as mudanças decorrentes de uma sessão de som terapêutica. São tão subtis, macias, suaves, leves, que quase corremos o risco de pensar que é por outra coisa qualquer. 


Silvia, também tu, trabalhas com magia!
Dia 25/09/2016 escrevi: "Experiência maravilhosa! O som entra sem convite, mas respeitando cada célula! A harmonia das emoções múltiplas e desarranjadas são aceites num abraço e num sorriso. As lágrimas nutrem no fim todo o universo de gratidão e aceitação, compreensão e clarividência. 
Absolutamente grata pela mestria e disponibilidade ao outro Sílvia Catarina Santos!"

domingo, 30 de outubro de 2016

Construção de uma Família!

Momentos bons são os que partilhamos! São efetivamente aqueles que nos caracterizam e que percebemos o valor, a dignidade, o respeito, o igual valor, a responsabilidade... Recordamos as nossas intenções enquanto pais e educadores (vê mais aqui), e enquanto casal.

Claro que também existem momentos menos bons, mas até esses nos caracterizam em bom, como uma oportunidade de melhorar e de respeitar cada emoção que surge. Cada uma com o seu papel! Cada uma para ser sentida em cada momento, e deixar ir, como cada nuvem que há no céu... nós somos mais que isso. Somos o céu em si, sempre azul, firme, lá, igual a si mesmo! 





 




Partilho convosco uma tarde linda, com o João Patrício, que sabe retirar o que cada um tem de melhor, cada família, cada casal. Obrigada João!

Vejam mais aqui: https://www.facebook.com/joaopatriciofotografia e http://www.joaopatricio.com/


quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Família de origem

James Framo, já em 2002 refletia que "(...) o aspecto que considero mais importante do meu trabalho, que é o envolvimento da família de origem no tratamento de famílias, casais e indivíduos. (...) 

Vale dizer que as atuais dificuldades (...) são consideradas esforços de reparação no sentido de corrigir, controlar, defender-se e apagar antigos e perturbadores paradigmas relacionais ligados à família de origem. 

Na escolha de certas relações íntimas em particular, mais que de outras, as pessoas tentam encontrar soluções interpessoais para conflitos intrapsíquicos. 

A maior parte das pessoas não "vê" o parceiro ou os filhos pelo que são, uma vez que existem fantasmas a impedir uma visão clara: os outros significativos são apenas vagos representantes de figuras pertencentes ao passado e de aspectos escondidos de si próprios.
"


quinta-feira, 21 de julho de 2016

Usufruo da Luz!

Quando não estamos bem centrados em nós, e perdemos foco, de quem somos e onde estamos, permitimos que o nosso espaço seja invadido. Levam-nos energia. Não tem mal! Precisam dela e nós temos. Mas ficamos gastos, cansados, "sem energia", como costumamos dizer.

Tendo esta consciência, então teremos claramente de nos recentrarmos, aqui e agora, neste espaço, quem somos e para onde vamos. Foco! Respiração!

Como não somos seres isolados, podemos aproveitar, em bom de bom, o que a vida também nos dá. 
Uma criança, principalmente dos 0 aos 3 anos, é Luz pura. Recebe do universo e dá. Os cuidados que precisa e exige, permite-nos chegar, aqui e agora, estar presente com uma força e convicção inabaláveis. Estão cá para nós! 

Também nos cabe a tarefa derradeira de sermos um ser digno de ser imitável e mostrarmos que o mundo é de confiança e seguro, é bom! Esta é a nossa tarefa nos primeiros 3 anos de vida do ser maravilhoso que está a construir-se. 


Então, de vez em quando (muitas vezes) venho aqui beber e usufruir da Luz!

terça-feira, 19 de julho de 2016

"As árvores", Hermann Hess

Hermann Hess
“Para mim, as árvores são os pregadores de fala mais penetrante. Eu as reverencio por viverem em tribos, famílias, em florestas e bosques. E ainda mais as reverencio por se manterem de pé sozinhas. Elas são como pessoas solitárias. Não como eremitas que se escondem de algumas fraquezas, mas como grandes e solitários homens como Beethoven e Nietzche. Em seus mais altos ramos, o mundo farfalha. Suas raízes descansam no infinito, mas elas não se perdem de si mesmas ali, elas lutam com todas as forças de suas vidas por uma coisa apenas: preencher a si mesmas em acordo com suas leis, construindo e erguendo suas próprias formas que melhor representem o que elas verdadeiramente são. Nada é mais sagrado, nada é mais exemplar que uma bela e forte árvore. Quando uma árvore é cortada e revela seu tronco nu e cortado ao sol, alguém pode ler sua história no luminoso e inscrito disco do seu tronco: nos anéis, seus anos, suas cicatrizes, todos os seus esforços, todos os seus sofrimentos, todas as suas doenças, toda a felicidade e prosperidade ali, verdadeiramente escritas, tempos de escassez entremeados nos tempos fartos, os ataques que suportou e as tempestades a que resistiu. E todo o jovem fazendeiro sabe que a mais rara e nobre madeira, tem os anéis mais apertados, que a altura das montanhas e seus permanentes perigos, no que têm de mais indestrutível e forte, dão as condições ideais para o seu crescimento.
Árvores são santuários: quem quer que saiba falar com elas, ouví-las, pode aprender a
A Árvore da Vida, Klimt (1909)
verdade. Elas não pregam lições e preceitos. Elas pregam, sem temer particularidades, as antigas leis da vida.
Uma árvore diz: um grão está escondido em mim, uma faísca, um pensamento, eu sou vida, da vida eterna. A tentativa e o risco da mãe eterna me conceber é única, única na textura e veias da minha pele, única no menor brincar das folhas nos meus ramos, única na menor das cicatrizes na minha casca. Eu fui feita para dar forma e revelar o eterno no menor dos meus mais especiais detalhes.
Uma árvore diz: minha força é confiável. Eu não sei nada sobre os meus pais, não sei nada sobre as centenas de crianças que todo ano saltam de mim. Eu trago à vida, os segredos contidos nas minhas sementes à sua mais última finalidade e não me importo com nada mais. Eu confio que Deus está em mim. Eu confio que meu trabalho é sagrado. Tudo o que vem desta confiança, eu vivo.
Quando somos atacados e não podemos mais afirmar nossas vidas, então uma árvore tem algo a nos dizer: Acalme-se! Acalme-se! Olhe pra mim! A vida não é fácil, a vida não é difícil. Estes são pensamentos infantis… Seu Lar não é aqui ou lá. Seu Lar está dentro de você ou não está em nenhum lugar.
Meu coração anseia soltar suas lágrimas quando ouço o farfalhar nas àrvores à janela durante a noite. Se alguém ouví-las silenciosamente por um bom tempo, o anseio revela seu grão – sua essência, e seu significado. Isso não é tanto uma maneira de fugir do sofrimento de alguém, ainda que pareça. Isso é o anseio por um lar, pela memória da mãe, por novas metáforas da vida. Isso leva ao lar. Cada jornada conduz de volta ao lar, cada passo é um nascimento, cada passo é uma morte, cada sepulcro é uma mãe.
Então, a árvore farfalha à noite quando nos colocamos desconfortavelmente diante dos nossos pensamentos infantis. Árvores têm duradouros pensamentos, duradouros e restauradores respirares, e tão duradouras suas vidas quanto são as nossas. Elas são mais sábias do que nós somos, até que comecemos a ouví-las. Mas quando aprendemos a ouvir as árvores, então, a brevidade, a rapidez, a inocência precipitada dos nossos pensamentos encontrarão incomparável alegria. Quem quer que aprenda a ouvir as árvores, acaba querendo ser como as árvores: não irão querer ser outra coisa senão o que realmente são. Aí está o Lar. Aí está a felicidade.”  
Herman Hesse

domingo, 27 de março de 2016

O real sentido da Páscoa

A Páscoa é uma festa repleta de imagens fortes e marcantes. 

  • No hemisfério sul, ela ocorre no outono, no primeiro domingo após a primeira lua cheia. A Páscoa é sempre comemorada no domingo, mostrando uma relação com o Sol, astro que rege esse dia da semana, mas também tem relação com a Lua cheia, lembrando que a lua não tem luz própria, apenas reflete a luz do sol.
  • Antigamente ela acontecia apenas no hemisfério norte, na época da primavera, quando as pessoas ainda tinham grande relação com as forças da natureza. Naquela época, sobreviver ao rigor do inverno era um grande desafio, e chegar à primavera era motivo de grande celebração. Era nesta época do ano que a vida recomeçava, as cores retornavam, tudo desabrochava. Era a vitória da vida sobre a morte!
  • A palavra Páscoa, vem do hebraico, PESSACH, que significa passagem. Quando Moisés desafiou o faraó e conduziu seu povo rumo à Terra Prometida libertando-os da escravidão. Neste fato histórico, mais uma vez ocorreu a vitória da vida sobre a morte.
  • Na tradição cristã, a Páscoa novamente ocupa uma importância fundamental. Após os quarenta dias da quaresma e depois de refletir sobre os acontecimentos vivenciados por Jesus Cristo durante a Semana Santa, os cristãos comemoram, no domingo de Páscoa, a glória da ressurreição de Cristo.
  • Outra imagem, que claramente mostra a ideia de vida, morte e ressurreição é a metamorfose da lagarta em borboleta, representando a morte do corpo, a transformação e o renascer. A imagem arquetípica da borboleta que, quando lagarta, fecha-se num escuro casulo deixando a luz e o calor transformarem sua existência em cor e leveza!
  • O coelho e os ovos também possuem um significado especial nas comemorações pascais. O ovo representa uma vida interior, ainda em estado germinal, que se desenvolve, rompe uma casca dura e em seguida desabrocha em sua plenitude. O coelho, por sua vez, representa um animal puro, digno de carregar e trazer os ovos da Páscoa. Além disso, é um animal muito fértil, que se reproduz com facilidade.



Feliz Páscoa 2016

Devemos vivenciar a possibilidade de deixar morrer em nós o que não queremos mais, o que já não nos serve, e também permitimos que o novo em nós possa florescer.

Devemos ter claro dentro de nós a possibilidade da vida, morte e ressurreição de hábitos, atitudes e modos de pensar, para nos tornarmos pessoas melhores e mais sensiveis. 

Se tivermos consciência da necessidade de cada um realizar este exercício interior, podemos, então, resgatar o real sentido da Páscoa!

Lembrando que há casal!

Para o casal se lembrar que é casal, ainda, depois do trabalho, das miúdas e miúdos, da casa, da roupa, do voluntariado, dos amigos, das discussões e dos sorrisos, há pequenos nadas que podemos usar!
Duas ou três dicas, por exemplo:
1. Quando estão chateados façam uma guerra de almofadas; deitam a raiva e agressividade fora e ainda arrancam uma gargalhada!
2. Escrevam bilhetes um ao outro e deixem em vários sítios da casa.
3. ataque de cócegas!
4. Durante 1 dia só podem dizer coisas boas, elogios e reconhecimentos, um ao outro e do outro. E enviem mensagens: "Gosto de ti porque..."
Cá em casa estão nos espelhos colados com fita-cola, no frigorífico e na entrada (ou saída) de casa, num quadro de ardósia.

Como são as vossas estratégias?!

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Birras que se fazem a dois!

Ontem fiz uma birra das grandes, daquelas horríveis.
Dei por mim a pensar no que tinha acontecido, no que tinha dito... e andei com um pensamento todo o dia, proverbio sueco "Ama-me mais quando menos merecer, que é quando mais preciso.

Contextualizando: quando se pede alguma coisa à Popotinha que quebra a linha de intensões que tem para os próximos momentos da vida dela, ela reage com raiva e zanga.
Coisas do tipo: "Anda jantar!", ou "Veste-te primeiro!". A resposta tem sido arrasadora para mim: "Tu és má!", lavada em lágrimas, e gritos.
Ora ontem não consegui digerir nem reagir da melhor forma.

Faz-me sentido desabafar, mas também desmontar isto.
Quando falei com ela, à noite, antes de dormir, retive duas coisas que comentou comigo: "Não sei dizer as coisas, às vezes! E eu queria mesmo acabar de ver aqueles bonecos." e pediu-me afincadamente "Mamã, respira. Tens de respirar mais."

Simples! Vê aqui a estratégia de "3 Step/Minutes Breathing Space"!

Na verdade eles ainda não reconhecem as emoções, não têm vocabulário para falar sobre elas, para saber canalizar e gerir. 
Mas reparem, a frase "És má!" é um ataque ao ego. Nós ficamos profundamente magoados, irados, tristes, frustrados... 
Agora imaginem o que isto faz na auto-estima, imagem e ego de uma criança quando se lhe dirigimos com sermões do tipo "És mentiroso. És um bruto. Assim não te deixo fazer nada. Não confio em ti... És mau! És mesmo mau.
Quais são as tuas intensões para com a educação do teu filho? O que ele aprende com isto? Vale a pena reposicionarmo-nos!
Na maioria das vezes estamos a referirmo-nos a comportamentos que tiveram e não a eles. A atitude e a forma é que deve ser redirecionada.

Se conseguirmos ter isto em mente, se efetivamente, respirarmos, e conseguirmos ter 3 segundos ou até menos, conseguimos agir de forma diferente.
  • Reconhecer a emoção
  • Como é que ela te faz sentir
  • E só depois, só depois ... redirecionar e explorar outras formas de agir, de lidar.

Lembra-te

Partilho ainda um texto de uma mãe, que conta a sua reação depois do filho ter tido um ataque de raiva e acabou por partir um espelho. Vê aqui!

Vamos aprendendo, maravilhosas partilhas.

domingo, 3 de janeiro de 2016

"...um Ser Humano!"


"...um herói e um mártir não é um protótipo abstrato nem um modelo de perfeições, mas sim um ser humano, feito de contradições e de contrastes, fraquezas e grandezas, dado que um homem, como escreveu José Enrique Rodó, 'é muitos homens', o que quer dizer que anjos e demónios se misturam na sua personalidade de maneira intricada."


"... como prova de que é impossível chegar a conhecer de forma definitiva um ser humano, totalidade que escorrega sempre de todas as redes teóricas e racionais que tentam capturá-la." 



(Mario Vargas Llosa, in 'O Sonho do Celta')

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Ano Novo


Ano Novo
Ficção de que começa alguma coisa!
Nada começa: tudo continua.
Na fluida e incerta essência misteriosa
Da vida, flui em sombra a água nua.
Curvas do rio escondem só o movimento.
O mesmo rio flui onde se vê.
Começar só começa em pensamento.

                                   (Fernando Pessoa)


sábado, 14 de novembro de 2015

As Crianças

E uma mulher
que trazia um menino ao colo
disse:

- Fala-nos das Crianças.

E ele respondeu:

- Os vossos filhos
não são vossos filhos:
são filhos e filhas
do chamamento da própria Vida.

Vêm por vosso meio
mas não de vós;
e apesar de estarem convosco,
não vos pertencem.

Podeis dar-lhes o vosso amor;
mas não os vossos pensamentos:
porque eIes têm pensamentos próprios.

Podeis acolher os seus corpos;
mas não as suas aImas:
porque as suas aImas
habitam a casa de amanhã
que não podeis visitar,
nem sequer em sonhos.

Podeis esforçar-vos por ser como eles;
mas não tenteis fazê-los como vós.

Porque a vida não vai para trás,
nem se detêm com o ontem.

Sois os arcos, e os vossos filhos
as setas vivas projectadas.

O Arqueiro vê o alvo no caminho do infinito,
e reteza-vos com o seu poder
para que as setas
possam voar depressa para longe.

Que a vossa tensão na mão do Arqueiro
seja de alegria.

Porque assim como Ele gosta
da seta que voa,
também gosta do arco que fica.


                                             (Khalil Gibran, in 'O Profeta')

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

"A birra apanhou-me!"

Esta é a "nossa" estória! Partilho-a agora com vocês.
Começou há seguramente 3 anos e meio. Começa com um urso a que demos o nome de "Urso Mau" (não sei explicar a escolha do nome, pois o Urso Mau é um fixe!).

A Popotinha é uma criança igual a qualquer outra: exige mimo, montanhas de atenção, autonomia, quer brincar tanto como dormir, frusta-se tal como ri e sorri, grita e fala alto, quer abraços e quer que a entendam. Tem birras como eu e tu! 
Mas, às vezes, as birras ficam com ela, ela não lhes consegue fugir. Nessas alturas, pergunto-lhe: "_ A birra apanhou-te!", com carinho, empatia... Ela confirma! Então montamos a caça à birra! Tiro-a do sítio onde está, vamos para ao pé de uma janela ou porta, e tiro-lhe a birra. Ás vezes está nas costas, outras atrás das orelhas e é retida nas minhas mãos em concha e atirada pela janela/porta ou vai para o bolso quando não tenho alternativa. Para ela não voltar, o Urso Mau apanha-a e fica com ela. 
Já aconteceu ir de férias e as birras eram muitas. A Popotinha confidenciou-me que o Urso Mau tinha ido de férias também. Pedimos reforços: chamamos o seu primo - o Urso da Natura!

A Popotinha agradece sempre ao Urso da Natura quando o vê!
Já chegámos a ir de férias para bem longe e pedimos antecipadamente para que eles os dois viessem connosco. Mas as birras vinham tanta vez aborrecer a Popotinha que tive de perceber o que se passava. A Popotinha disse-me que eles aproveitaram o passeio e foram fazer canoagem de manhã e ainda não tinham voltado. Quando eles voltaram, invoquei o contrato das férias. Que falta de profissionalismo!! 
O Urso Mau já chegou a ficar com birras minhas e do pai também. Mas voltaram e a perspicácia da Popotinha informa-me que tinha deixado a janela aberta e a birra era tãaao grande que o Urso Mau não a aguentou sózinho. Ajudou-me a tirá-la de cima de mim e chutamo-la pela janela com força e rapidamente fechamos a janela. Ufa!!

Ok! Vamos a explicações de desenvolvimento infantil.
O lobo frontal começa a desenvolver-se mais, com grandes ligações neuronais, após um ano de idade. Deve-se à necessidade do bebé de aprender as percepções sociais e emocionais do mundo evolvente. Começa a perceber o que é certo e o que é errado, normas de conduta da sociedade (nesta fase, meramente relacional-dual), o que é esperado ou não dele. Então começa a perceber melhor como relacionar-se com o mundo, começa a perceber como pedir, chamar a atenção, e a lidar com frustrações, necessidades de outros níveis para além do dormir, comer e querer o corpo da mãe/pai. Um fabuloso mundo de ligações começa em força! Lindo! "Os terriveis 2" estão aí! Há especialista que referem que não existe esta fase, considerando que o desenvolvimento neuronal não termina, então não existe fase. Existe aprendizagem e formas de lidar com as nossas próprias emoções, alternativas, aceitações...
Até sensivelmente aos 7 anos, o pensamento mágico domina o mundo da criança!
Perceber isto, quer dizer que podemos utilizar as técnicas de externalização de todas as emoções que a criança ainda não sabe o que é, quanto mais nomeá-las! Lembrem-se que as birras dizem respeito a uma necessidade não colmatada, de segurança, de fome, de sono, de necessidade de conexão! (mais informação aqui e aqui

Outro exemplo prático, pode ser em relação ao monstro que teima em estar no quarto. Podemos ajudar a procurar e podemos estimular a empatia da criança e a sua curiosidade nata para lhe perguntar: "_ Sério? Será que ele quer jogar às escondidas? O que será que ele quer? Será que tem sede? Podíamos-lhe deixar um copo de água! Será que ele se quer aquecer? O teu quarto até é quentinho."

Percebem a ideia?

E a vossa estória, qual é? :)

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Lidando com a morte!

A perca recente do meu pai ainda não me permite vir aqui escrever com uma estrutura de pensamento e, acima de tudo, de concentração, que me permitam fazer um texto bonito! Mas tenho intenções! 

Entretanto queria partilhar convosco as partilhas que a minha mestre me vai fazendo!
Tem lidado com a morte de perto este ano e, com 4 anos, percebeu que a vida é finita! A angústia maior foi perceber que "os pais também morrem?!"

Hoje, antes de adormecer disse-me: "Sabes mãe, os pais não morrem! (Sorriu) Eles vivem sempre no nosso coração!"


domingo, 16 de agosto de 2015

Quem precisa de time-out somos nós!

Ontem, enquanto praguejava babuseiras, cá em casa, aproposito do Sr. Jonas Pistolas fazer as necessidades na sua zona de conforto (que só por mero acaso TAMBÉM É A NOSSA) a Popotinha veio chamar-me a atenção que fui incorrecta e dura e que da próxima vez tinha de ir ter um "chá de cadeira"!
Parei! ... Sorri! E assumi:
"-Tens razão! Enquanto tivesse na cadeira fico a fazer o quê?"
"-Olha, ficas a pensale, quelalo!!"
"-O que devo pensar, Popotinha?"
"-Olha, metes o dedo aqui (coloca o indicador no queixo) e ficas lá!"

Repara, a Popotinha não sabe o que fazer!
Quando dizemos às crianças que "Vão para a cadeira" temos de ter noção que elas não sabem pensar... sozinhas! Elas são seres humanos que vivem no auge das suas emoções, mas ainda não lhe sabem dar nomes. Então a criança percebe que tu estás zangado e que não gostaste do que ela acabou de fazer. Mas sente que não gostas dela, não do comportamento que ela fez. 
Repara no que dizes: "Já te disse que não se morde nos teus amigos!", "Não se empurra!", "Quantas vezes tenho de te chamar?!" - dizes tudo o que não é para fazer. Está na altura de dizeres o que é para fazer!
Repara, antes dos 7 anos, não existe pensamento abstracto! Tudo é concreto, imediato, causa efeito e sentido na pele. 

Acompanha, então, a criança, no seu pensamento, no seu sentimento, nas suas fragilidades e conexões maravilhosas acontecem no córtex frontal (responsável pelo discernimento do bem e do mal, das escolhas, de tempo...) e contigo!

Às vezes, o peso da nossa historia e tradição fala mais forte. Eu sei! Sou como tu! Por isso, quando estou claramente a perder os meus limites...:
"Vai já para o teu quarto... que eu já lá vou ter!"
Retiras a criança do sitio da birra, tens tu o teu time-out, respiras, e transformas um momento de descontrolo numa verdadeira conexão - time-in!


quarta-feira, 22 de julho de 2015

Aprender pela positiva

Estes dois já me ensinaram! Maravilhoso!


Como é obvio, o Sr. Jonas Pistolas, ainda não sabe que o seu WC não é em casa. Como ainda não está aconselhado a ir à rua pelo Dr., gostaríamos que fosse à varanda. Esta situação revela-se desafiadora para a família.


A Popotinha ralha com o Jonas, e vira-se para mim e diz "Cuidado que ele é pequenino. Não se bate!"

Mas o momento do click para mim, deu-se com um olhar da Pinipon! (Primeiro axioma da sistémica - "Impossível não comunicar!"): Estava a ralhar aproposito de um dejeto no meio da sala, e dei uma palmada ao Jonas. A Pinipon olha-me... "o que foi aquilo??! O que terá feito a minha mãe?!?" Nada confortável, digo-vos!
Pouco tempo depois fez na varanda. Levou uma recompensa e a vez seguinte voltou a fazer na varanda.

Moral da história: andei uma semana a ralhar e nada. Com uma recompensa a aprendizagem foi super rápida.

Fazendo a devida analogia, com os devidos distanciamentos, percebemos que a literatura aponta para processos de aprendizagens mais rápidos com abordagens autoritárias e punitivas. No entanto, a consistência no tempo e possibilidade de ligar conceitos, numa aprendizagem verdadeiramente lógica-dedutiva e verdadeiramente motivadora, verifica-se em abordagens conscientes, pacientes, de reconhecimento e amor.

Na mesma linha, importa referir que a aprendizagem também é mais rápida e empoderada quando a abordagem é pelo que se pretende ensinar e não pelo que não se quer. Por exemplo: "Vai para o chão!" versus "Não vás para o sofá. Vai para o chão!"
Faz lembrar aquelas pessoas que dizem "Eu não quero ficar gorda!"; "Eu não quero aquela parede pintada de vermelho." O cérebro perde muito tempo a perceber e processar a informação do "Não quero", com os seus 'porquês', 'não gostos', desenvolver uma resposta emocional compatível com a ordem, para depois conseguir distanciar-se disso e pensar em alternativas, outros caminhos e o que se quer então. 

Ajudei?!

Ah!! Não pensem que já não faz em casa... :( Ainda não está concluída a aprendizagem!

sábado, 11 de julho de 2015

Um novo ciclo começa!

Viva! 

Claro que partilho! 

Jonas Pistolas entrou hoje nas nossas vidas! 
Faz as delícias da Popotinha e os desafios da Pinipon! 
Dois meses de puro mimo! 

O que terá para nos ensinar!?!

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Tens um Pinóquio lá em casa?!

Pois existe a fase da mentira! Existe? Será que existe mesmo? Pois se calhar existe!
Tu já mentiste?! Para quê?!
Para "salvares a pele"?!
Para teres o que queres?!
Porque não querias passar por totó e óbvio que mentiste assumindo que sabias "aquilo" mesmo não tendo percebido?! Ou ouvido a pergunta?! 
Mentiste porque nem te querias chatear?!

Pois, também os mais pequenos!

E ainda, porque não separam o mundo imaginário do real, ou porque os adultos disseram palavras difíceis e eles tiveram que fazer uma interpretação para aquilo lhe fazer sentido.... tantas coisas!

E o que gostavas que te dissessem ou fizessem para que a mentira não surgisse como uma solução?


Bom eu tive uma revelação hoje! Consegui descobrir mais uma razão para a criança mentir.

A Popotinha de vez em quando mente! Quase sempre, a sua mentira, é uma sugestão de que a melhor amiga, a C., lhe fez mal, ou portou-se mal. O engraçado é que esta situação surge quando não estão juntas, e intensifica-se quando não estão juntas há muito tempo.
Ora, óbvio que percebia a mentira porque era impossível ter acontecido quer no espaço, quer no tempo (devia estar o desafiar o Einstein, não?!)

Hoje fez-se um click! Tinha sempre a conversa com ela no sentido de não ser bonito! Mas hoje... hoje... consegui mudar a lente!

SAUDADES! 
Tão simples! Saudades!
Mas a Popotinha não sabe explicar, ainda tem dificuldades em explicar sentimentos, as coisas são abstractas.

Mais uma vez batemos nas necessidades, não é?! (Podes ler mais aqui)
Devemos reconhecer a necessidade e a dificuldade que a criança pode estar a sentir, devolver-lhe o que lhe está a sentir dando-lhe um nome e tentar colmatar a necessidade.

A Popotinha conheceu melhor a palavra "Saudade" e voltou a estar com a melhor amiga. Como será da próxima vez que sentir "aquilo"? "Aquilo" que ela só soube explicar mentindo?! Estou curiosa! 

Muda a lente e vê o que acontece! :)


sexta-feira, 1 de maio de 2015

Faz a pergunta certa - estratégia #3 para redução do stress

Como tenho vindo a partilhar aqui, o questionamento é uma ferramenta importante num percurso de auto-conhecimento. Dirige-nos e recentra-nos no que, para nós, é essencial!

No entanto, temos muita tendência em questionar "porquês". E pergunto: o que fazes com esta pergunta?

Bom, quando penso naquilo que eu gosto, esta pergunta remete-me para pesquisa e activa-me para uma aprendizagem e uma curiosidade fabulosas. Adoro!

Mas quando me remeto a questões pessoais, do e no passado, de partilha e dos vários papeis que tenho, esta pergunta paralisa-me. 
Como é contigo?

Ouvimos muitas vezes: "Eu hoje sou assim, porque na minha infância....", "Sou assim porque uma vez..."! Ora na verdade nada destas questões, destas respostas à pergunta "Porquê?" nos acrescenta alguma coisa, ou nos indica um caminho. Trás-nos conhecimento e compreensão, o que numa primeira fase é importantíssimo. Passamos a ver uma verdade!

Agora aprecia a magia se fizeres outra pergunta: "Como?"

"Como posso/podemos fazer melhor?"
"Já tentei assim e assim. Não gostei dos resultados. Como posso fazer diferente? O que é que eu ainda não experimentei?"
"Não concordo contigo. Como podemos chegar a um consenso?"


A nossa mente não se permite a ficar com um "porquê" sem resposta. Então começa a divagar.
Se a pusermos a pensar no "como?" focamo-nos na acção e na solução! E podemos ser heróis todos os dias! Acredita no potencial da pergunta. E mais ainda, acredita no potencial das tuas intenções: 
"O que queres? 
Como podes fazer para o conseguir? 
Hoje podes fazer o quê?"


E com o teu filho? Em vez de "Porque não queres arrumar os teus brinquedos?" se tentares "Como podemos arrumar os teus brinquedos? Posso ir buscar a caixa e tu colocas lá dentro, ou vais tu buscar a caixa e coloco eu os brinquedos na caixa?".
Para além de o teu filho se focar na acção, compromete-se com ela, até porque tu também és mais criativa(o), apresentando logo uma solução e uma escolha. A pergunta de "Como?", funciona quase como o teu espaço de respiração, para pensares e comunicares diferente. Como promoves uma escolha em cooperação, também motivas e sentes-te motivado.

Boas perguntas!

sábado, 25 de abril de 2015

O nome que dás às coisas - estratégia #2 para redução do stress

A segunda proposta que te trago é bastante engraçada!

Como já disse no primeiro post deste blog, nada que vos trago é novidade, mas partilho ideias de outros que fazem ressonância em mim, e vão surgindo na minha cabeça em contextos da minha vida quotidiana. 

Cá em casa o que o FM mais diz numa conversa normalíssima é: "Deixa que eu resolvo isso!". Em que contextos?
-"Vais pôr o lixo lá fora?"
-"Olha que quando formos ao supermercado, é preciso comprar detergente para a loiça."
-"O Pinipon já não tem sopa, é preciso fazer."
Ora se a resposta é resolvo, trata-se de um problema, não?!


O truque para baixar níveis de stress desnecessários, passa também pela linguagem.

Sugiro-te que passes a usar as palavras: "situação", "dificuldade", "questão", e não utilizes "problema".
Fecha os olhos, e no exercício de "3 minutos de respiração", está atento a como te sentes quando pensas "Eu tenho um problema!" versus "Eu tenho uma dificuldade/questão/situação"

O que acontece normalmente é que "problema" tem uma carga pesada, demasiado difícil e sentimos desesperança.
"Situação", "exercício", "dificuldade", remete a pessoa para a consciencialização da situação, do que ela nos faz sentir, curiosidade pela questão e pelas soluções, e remete-nos naturalmente e mais facilmente para a acção. Activamos mais facilmente os nossos recursos!
Quando pensamos em "problema", normalmente o pensamento seguinte, e pior ainda, a frase que nos ouvimos dizer é: "Eu não consigo!". Entramos facilmente num ciclo vicioso de infortúnio e desalento. 

Desafio-te a iniciares um ciclo de aventura, desafio, de novidade e noção de competências que tens dentro de ti. 
Compromete-te contigo!!

P.S. - Estava aqui a pensar: Imagina que dizes ao teu filho: 
"_Este exercício de matemática é mesmo um desafio. Vamos ter de pensar juntos." em vez de "Realmente este problema de matemática é difícil." .....