quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Sons em Família

Há uns bons tempos (pelo menos, desde que a Pinipon nasceu) que a vida emocional da Popotinha se alterou. Demorei muuuuiiito tempo a integrar isto. Uma coisa é entender isto de forma racional, dos típicos ciúmes de irmão e ver qual a melhor forma de lidar, com aquelas estratégias que lemos e relemos e fazemos... Outra completamente diferente, é o sentimento que nos abala... a injustiça perante um que acaba de chegar versus a dor da alma do outro que sente que lhe tiraram um pedaço de chão, que ainda por cima não estava conquistado.

A dualidade de sentimentos existia em mim e na Popotinha. A Pinipon nasceu com uma irmã. Dado adquirido! A Popotinha nasceu única, fez-me mãe e gostava desse posto!
A dualidade de gostar da irmã e saber que ela veio ocupar espaço, um espaço que era dela... gostar da irmã, mas só a mãe lhe dava leite... Passou a dizer "Eu sou filha do pai, a Pinipon é tua filha!" A dor que a Popotinha tinha!

Comecei a sentir que já nem eu sabia lidar com isto. Como a ajudar!? Como ajudar-me?!

Volvidos 2 anos e meio, pedi ajuda à linda Silvia Catarina Santos e pedi uma sessão unifamiliar de "Sons em Família"! Vejam aqui!

O carinho da preparação da sessão!
Quero partilhar o meu testemunho! Acho importante escrevê-lo, no sentido em que reitero a necessidade, a fabulosa mudança, subtil e respeitadora de cada um, de cada processo, de perceber que foi a partir daqui, com esta ajuda, que muita coisa se tornou mais fácil e fluiu.

A sessão é uma verdadeira delícia, de jogos e brincadeiras, onde a criatividade surge sem julgamentos, a curiosidade fazem os deleites de pais e filhos e as ligações tornam-se mágicas. Sabemos lá nós, que cada célula está a ser nutrida, mexida na vibração que deve estar, fortalecendo cada grama do nosso ser e capacitando-nos para a co-existência com os nossos.

Depois de algum tempo, quase como um período de incubação necessário para a borboleta nascer, eis que renasceu uma nova forma de estar e existir, permitindo-se Ser.

Por um lado, a Popotinha começou a verbalizar. Começou a explicar-se e a dizer que não queria a Pinipon ao pé dela, que gostava que ela passasse mais tempo com a avó para ficar com os pais, e mais tarde começou mesmo a pedir expressamente para fazer programinhas só comigo. O facto de ter colocado por palavras aquilo que sentia, e não sentiu julgamento da nossa parte, mas compreensão e contensão, favoreceu em muito o processo dela. Ouvia-se a ela própria!

Por outro lado, senti que eu já não julgava e não tentava conter, falando na importância da partilha e no mau trato que fazia com a irmã, mas sim em plena compreensão e aceitação do seu processo de reconquista e reposicionamento no espaço, que agora é ocupado por mais um. Também me ajudou, no sentido de dizer o que tinha a dizer num momento que não se estendia mais no tempo e no espaço. Deixei de ficar com birra, envolta no mesmo registo durante muito tempo, e larguei a culpa que sentia com isso. Uma pescadinha de rabo na boca.

Em jeito de conclusão, pretendo agradecer à Silvia a sua disponibilidade, a paciência para com a Popotinha, que sentiu bem o som a vibrar em cada célula, e a mim pela abertura que tive de compreender que precisava de ajuda, de compreender o processo por trás da estética, e refletir e sentir verdadeiramente as mudanças decorrentes de uma sessão de som terapêutica. São tão subtis, macias, suaves, leves, que quase corremos o risco de pensar que é por outra coisa qualquer. 


Silvia, também tu, trabalhas com magia!
Dia 25/09/2016 escrevi: "Experiência maravilhosa! O som entra sem convite, mas respeitando cada célula! A harmonia das emoções múltiplas e desarranjadas são aceites num abraço e num sorriso. As lágrimas nutrem no fim todo o universo de gratidão e aceitação, compreensão e clarividência. 
Absolutamente grata pela mestria e disponibilidade ao outro Sílvia Catarina Santos!"

domingo, 30 de outubro de 2016

Construção de uma Família!

Momentos bons são os que partilhamos! São efetivamente aqueles que nos caracterizam e que percebemos o valor, a dignidade, o respeito, o igual valor, a responsabilidade... Recordamos as nossas intenções enquanto pais e educadores (vê mais aqui), e enquanto casal.

Claro que também existem momentos menos bons, mas até esses nos caracterizam em bom, como uma oportunidade de melhorar e de respeitar cada emoção que surge. Cada uma com o seu papel! Cada uma para ser sentida em cada momento, e deixar ir, como cada nuvem que há no céu... nós somos mais que isso. Somos o céu em si, sempre azul, firme, lá, igual a si mesmo! 





 




Partilho convosco uma tarde linda, com o João Patrício, que sabe retirar o que cada um tem de melhor, cada família, cada casal. Obrigada João!

Vejam mais aqui: https://www.facebook.com/joaopatriciofotografia e http://www.joaopatricio.com/


quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Família de origem

James Framo, já em 2002 refletia que "(...) o aspecto que considero mais importante do meu trabalho, que é o envolvimento da família de origem no tratamento de famílias, casais e indivíduos. (...) 

Vale dizer que as atuais dificuldades (...) são consideradas esforços de reparação no sentido de corrigir, controlar, defender-se e apagar antigos e perturbadores paradigmas relacionais ligados à família de origem. 

Na escolha de certas relações íntimas em particular, mais que de outras, as pessoas tentam encontrar soluções interpessoais para conflitos intrapsíquicos. 

A maior parte das pessoas não "vê" o parceiro ou os filhos pelo que são, uma vez que existem fantasmas a impedir uma visão clara: os outros significativos são apenas vagos representantes de figuras pertencentes ao passado e de aspectos escondidos de si próprios.
"


quinta-feira, 21 de julho de 2016

Usufruo da Luz!

Quando não estamos bem centrados em nós, e perdemos foco, de quem somos e onde estamos, permitimos que o nosso espaço seja invadido. Levam-nos energia. Não tem mal! Precisam dela e nós temos. Mas ficamos gastos, cansados, "sem energia", como costumamos dizer.

Tendo esta consciência, então teremos claramente de nos recentrarmos, aqui e agora, neste espaço, quem somos e para onde vamos. Foco! Respiração!

Como não somos seres isolados, podemos aproveitar, em bom de bom, o que a vida também nos dá. 
Uma criança, principalmente dos 0 aos 3 anos, é Luz pura. Recebe do universo e dá. Os cuidados que precisa e exige, permite-nos chegar, aqui e agora, estar presente com uma força e convicção inabaláveis. Estão cá para nós! 

Também nos cabe a tarefa derradeira de sermos um ser digno de ser imitável e mostrarmos que o mundo é de confiança e seguro, é bom! Esta é a nossa tarefa nos primeiros 3 anos de vida do ser maravilhoso que está a construir-se. 


Então, de vez em quando (muitas vezes) venho aqui beber e usufruir da Luz!

terça-feira, 19 de julho de 2016

"As árvores", Hermann Hess

Hermann Hess
“Para mim, as árvores são os pregadores de fala mais penetrante. Eu as reverencio por viverem em tribos, famílias, em florestas e bosques. E ainda mais as reverencio por se manterem de pé sozinhas. Elas são como pessoas solitárias. Não como eremitas que se escondem de algumas fraquezas, mas como grandes e solitários homens como Beethoven e Nietzche. Em seus mais altos ramos, o mundo farfalha. Suas raízes descansam no infinito, mas elas não se perdem de si mesmas ali, elas lutam com todas as forças de suas vidas por uma coisa apenas: preencher a si mesmas em acordo com suas leis, construindo e erguendo suas próprias formas que melhor representem o que elas verdadeiramente são. Nada é mais sagrado, nada é mais exemplar que uma bela e forte árvore. Quando uma árvore é cortada e revela seu tronco nu e cortado ao sol, alguém pode ler sua história no luminoso e inscrito disco do seu tronco: nos anéis, seus anos, suas cicatrizes, todos os seus esforços, todos os seus sofrimentos, todas as suas doenças, toda a felicidade e prosperidade ali, verdadeiramente escritas, tempos de escassez entremeados nos tempos fartos, os ataques que suportou e as tempestades a que resistiu. E todo o jovem fazendeiro sabe que a mais rara e nobre madeira, tem os anéis mais apertados, que a altura das montanhas e seus permanentes perigos, no que têm de mais indestrutível e forte, dão as condições ideais para o seu crescimento.
Árvores são santuários: quem quer que saiba falar com elas, ouví-las, pode aprender a
A Árvore da Vida, Klimt (1909)
verdade. Elas não pregam lições e preceitos. Elas pregam, sem temer particularidades, as antigas leis da vida.
Uma árvore diz: um grão está escondido em mim, uma faísca, um pensamento, eu sou vida, da vida eterna. A tentativa e o risco da mãe eterna me conceber é única, única na textura e veias da minha pele, única no menor brincar das folhas nos meus ramos, única na menor das cicatrizes na minha casca. Eu fui feita para dar forma e revelar o eterno no menor dos meus mais especiais detalhes.
Uma árvore diz: minha força é confiável. Eu não sei nada sobre os meus pais, não sei nada sobre as centenas de crianças que todo ano saltam de mim. Eu trago à vida, os segredos contidos nas minhas sementes à sua mais última finalidade e não me importo com nada mais. Eu confio que Deus está em mim. Eu confio que meu trabalho é sagrado. Tudo o que vem desta confiança, eu vivo.
Quando somos atacados e não podemos mais afirmar nossas vidas, então uma árvore tem algo a nos dizer: Acalme-se! Acalme-se! Olhe pra mim! A vida não é fácil, a vida não é difícil. Estes são pensamentos infantis… Seu Lar não é aqui ou lá. Seu Lar está dentro de você ou não está em nenhum lugar.
Meu coração anseia soltar suas lágrimas quando ouço o farfalhar nas àrvores à janela durante a noite. Se alguém ouví-las silenciosamente por um bom tempo, o anseio revela seu grão – sua essência, e seu significado. Isso não é tanto uma maneira de fugir do sofrimento de alguém, ainda que pareça. Isso é o anseio por um lar, pela memória da mãe, por novas metáforas da vida. Isso leva ao lar. Cada jornada conduz de volta ao lar, cada passo é um nascimento, cada passo é uma morte, cada sepulcro é uma mãe.
Então, a árvore farfalha à noite quando nos colocamos desconfortavelmente diante dos nossos pensamentos infantis. Árvores têm duradouros pensamentos, duradouros e restauradores respirares, e tão duradouras suas vidas quanto são as nossas. Elas são mais sábias do que nós somos, até que comecemos a ouví-las. Mas quando aprendemos a ouvir as árvores, então, a brevidade, a rapidez, a inocência precipitada dos nossos pensamentos encontrarão incomparável alegria. Quem quer que aprenda a ouvir as árvores, acaba querendo ser como as árvores: não irão querer ser outra coisa senão o que realmente são. Aí está o Lar. Aí está a felicidade.”  
Herman Hesse

domingo, 27 de março de 2016

O real sentido da Páscoa

A Páscoa é uma festa repleta de imagens fortes e marcantes. 

  • No hemisfério sul, ela ocorre no outono, no primeiro domingo após a primeira lua cheia. A Páscoa é sempre comemorada no domingo, mostrando uma relação com o Sol, astro que rege esse dia da semana, mas também tem relação com a Lua cheia, lembrando que a lua não tem luz própria, apenas reflete a luz do sol.
  • Antigamente ela acontecia apenas no hemisfério norte, na época da primavera, quando as pessoas ainda tinham grande relação com as forças da natureza. Naquela época, sobreviver ao rigor do inverno era um grande desafio, e chegar à primavera era motivo de grande celebração. Era nesta época do ano que a vida recomeçava, as cores retornavam, tudo desabrochava. Era a vitória da vida sobre a morte!
  • A palavra Páscoa, vem do hebraico, PESSACH, que significa passagem. Quando Moisés desafiou o faraó e conduziu seu povo rumo à Terra Prometida libertando-os da escravidão. Neste fato histórico, mais uma vez ocorreu a vitória da vida sobre a morte.
  • Na tradição cristã, a Páscoa novamente ocupa uma importância fundamental. Após os quarenta dias da quaresma e depois de refletir sobre os acontecimentos vivenciados por Jesus Cristo durante a Semana Santa, os cristãos comemoram, no domingo de Páscoa, a glória da ressurreição de Cristo.
  • Outra imagem, que claramente mostra a ideia de vida, morte e ressurreição é a metamorfose da lagarta em borboleta, representando a morte do corpo, a transformação e o renascer. A imagem arquetípica da borboleta que, quando lagarta, fecha-se num escuro casulo deixando a luz e o calor transformarem sua existência em cor e leveza!
  • O coelho e os ovos também possuem um significado especial nas comemorações pascais. O ovo representa uma vida interior, ainda em estado germinal, que se desenvolve, rompe uma casca dura e em seguida desabrocha em sua plenitude. O coelho, por sua vez, representa um animal puro, digno de carregar e trazer os ovos da Páscoa. Além disso, é um animal muito fértil, que se reproduz com facilidade.



Feliz Páscoa 2016

Devemos vivenciar a possibilidade de deixar morrer em nós o que não queremos mais, o que já não nos serve, e também permitimos que o novo em nós possa florescer.

Devemos ter claro dentro de nós a possibilidade da vida, morte e ressurreição de hábitos, atitudes e modos de pensar, para nos tornarmos pessoas melhores e mais sensiveis. 

Se tivermos consciência da necessidade de cada um realizar este exercício interior, podemos, então, resgatar o real sentido da Páscoa!

Lembrando que há casal!

Para o casal se lembrar que é casal, ainda, depois do trabalho, das miúdas e miúdos, da casa, da roupa, do voluntariado, dos amigos, das discussões e dos sorrisos, há pequenos nadas que podemos usar!
Duas ou três dicas, por exemplo:
1. Quando estão chateados façam uma guerra de almofadas; deitam a raiva e agressividade fora e ainda arrancam uma gargalhada!
2. Escrevam bilhetes um ao outro e deixem em vários sítios da casa.
3. ataque de cócegas!
4. Durante 1 dia só podem dizer coisas boas, elogios e reconhecimentos, um ao outro e do outro. E enviem mensagens: "Gosto de ti porque..."
Cá em casa estão nos espelhos colados com fita-cola, no frigorífico e na entrada (ou saída) de casa, num quadro de ardósia.

Como são as vossas estratégias?!

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Birras que se fazem a dois!

Ontem fiz uma birra das grandes, daquelas horríveis.
Dei por mim a pensar no que tinha acontecido, no que tinha dito... e andei com um pensamento todo o dia, proverbio sueco "Ama-me mais quando menos merecer, que é quando mais preciso.

Contextualizando: quando se pede alguma coisa à Popotinha que quebra a linha de intensões que tem para os próximos momentos da vida dela, ela reage com raiva e zanga.
Coisas do tipo: "Anda jantar!", ou "Veste-te primeiro!". A resposta tem sido arrasadora para mim: "Tu és má!", lavada em lágrimas, e gritos.
Ora ontem não consegui digerir nem reagir da melhor forma.

Faz-me sentido desabafar, mas também desmontar isto.
Quando falei com ela, à noite, antes de dormir, retive duas coisas que comentou comigo: "Não sei dizer as coisas, às vezes! E eu queria mesmo acabar de ver aqueles bonecos." e pediu-me afincadamente "Mamã, respira. Tens de respirar mais."

Simples! Vê aqui a estratégia de "3 Step/Minutes Breathing Space"!

Na verdade eles ainda não reconhecem as emoções, não têm vocabulário para falar sobre elas, para saber canalizar e gerir. 
Mas reparem, a frase "És má!" é um ataque ao ego. Nós ficamos profundamente magoados, irados, tristes, frustrados... 
Agora imaginem o que isto faz na auto-estima, imagem e ego de uma criança quando se lhe dirigimos com sermões do tipo "És mentiroso. És um bruto. Assim não te deixo fazer nada. Não confio em ti... És mau! És mesmo mau.
Quais são as tuas intensões para com a educação do teu filho? O que ele aprende com isto? Vale a pena reposicionarmo-nos!
Na maioria das vezes estamos a referirmo-nos a comportamentos que tiveram e não a eles. A atitude e a forma é que deve ser redirecionada.

Se conseguirmos ter isto em mente, se efetivamente, respirarmos, e conseguirmos ter 3 segundos ou até menos, conseguimos agir de forma diferente.
  • Reconhecer a emoção
  • Como é que ela te faz sentir
  • E só depois, só depois ... redirecionar e explorar outras formas de agir, de lidar.

Lembra-te

Partilho ainda um texto de uma mãe, que conta a sua reação depois do filho ter tido um ataque de raiva e acabou por partir um espelho. Vê aqui!

Vamos aprendendo, maravilhosas partilhas.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Laboratório do amor! Cientificamente só são preciso 2 requisitos para a relação funcionar!

Este é um tema importante, tema de muitas conversas entre amigas e amigos. E em jeito de desabafo… Há dias, enquanto bebia um chá com uma amiga, falávamos/desabafávamos e até nos conseguíamos rir de nós próprias (sabermos rir de nós e connosco ajuda-nos a reposicionar e analisar a situação com uma outra lente). 

Percebemos que na maioria dos casamentos, os níveis de satisfação cai drasticamente nos primeiros anos juntos. Mas os casais que sobrevivem juntos e vivem efetivamente felizes durante anos e anos parece que têm em comum o espírito de ‘bondade’ e generosidade.

Todos os dias, em junho, o mês do casamento mais popular do ano, cerca de 13.000 casais americanos vão dizer "Sim, eu aceito", comprometendo-se a um longo relacionamento, cheio de amizade, alegria e amor até ao fim dos seus dias.

Mas efetivamente não funciona assim. A maioria dos casamentos fracassam: ou terminando em divórcio e/ou separação ou  terminam numa relação amarga e disfuncional.
De todas as pessoas que se casam, apenas três em cada dez permanecem em casamentos felizes, saudáveis, como diz o psicólogo Ty Tashiro no seu livro "The Cience of Happily Ever After", 2014.

Os cientistas sociais começaram a estudar e observar casais nas suas vidas quotidianas, na década de 1970, em resposta a uma crise social - a taxa de divórcios atingiu valores sem precedentes. Preocupados com o impacto que estes divórcios teriam nos filhos, os psicólogos decidiram virar a sua atenção para os casais, trazendo-os para o laboratório e assim observá-los e determinar quais são os ingredientes de um relacionamento saudável e duradouro.

"Cada família infeliz foi infeliz à sua própria maneira", como dizia o russo Lev Tolstoi, em Anna Karenina (1877), ou ...os casamentos que falharam têm, em comum, algo tóxico?

Deixem-me falar-vos de alguns estudos.

1.    O psicólogo John Gottman foi um desses pesquisadores. Nas últimas quatro décadas, ele tem estudado milhares de casais, para tentar descobrir o que faz com que as relações amorosas resultem. (Se queres saber mais, vê os 4 vídeos da conferência de 2009 de John Gottman aqui)

John Gottman começou a reunir suas descobertas mais importantes em 1986, quando ele criou "The Lab Love" com o seu colega Robert Levenson, da Universidade de Washington. Gottman e Levenson trouxeram recém-casados ​​para o laboratório e observavam-os a interagir uns com os outros.

Aos casais eram colocados elétrodos e eras-lhe pedido que falassem do seu relacionamento: como se conheceram, um grande conflito que tivessem tido, e relatarem uma memória positiva. Enquanto falavam, os elétrodos mediam o fluxo de sangue, ritmo cardíaco e níveis de sudação. Posteriormente, os casais foram para casa e seis anos mais tarde, foram contactados novamente para se perceber se continuavam juntos ou não.

Dos resultados, Gottman separou os casais em dois grandes grupos, a que chamou: os ‘mestres’ e os ‘desastres’. Os ‘mestres’ ainda estavam felizes juntos depois de seis anos. Os ‘desastres’ ou se tinham separado ou estavam juntos, mas cronicamente infelizes.

Quando analisaram os dados recolhidos, Gottman et al., viram diferenças claras entre os ‘mestres’ e os ‘desastres’
Os ‘desastres’ pareciam calmos durante as entrevistas, mas o seu corpo contou uma história diferente. O ritmo cardíaco era acelerado, as glândulas sudoríparas estavam muito ativas e a pressão sanguínea era rápida.

Gottman et al. seguiram milhares de casais longitudinalmente, e perceberam que os casais mais ativos fisiologicamente, eram os casais cujas relações se deterioravam ao longo do tempo.

Mas o que é que a fisiologia tem a ver com isto? 
Os ‘desastres’ mostravam todos os sinais de excitação, parecendo estar num modo de luta ou fuga, nos seus relacionamentos. Ter uma conversa sentada ao lado de seu parceiro era sentido pelos seus corpos, como estando a enfrentar uma fera.
Mesmo quando eles falavam das facetas agradáveis ​​ou mundanas dos seus relacionamentos, eles estavam preparados para atacar e ser atacados. 

Os ‘mestres’, ao contrário, mostram baixa excitação fisiológica. Sentiam-se calmos e ligados entre si, o que se traduziu num comportamento caloroso e afetuoso, mesmo quando eles discutiam. Os ‘mestres’ criaram um clima de confiança e intimidade que lhes permitiu sentir-se emocional e fisicamente mais confortáveis, o que se refletiu nos resultados fisiológicos.

Gottman queria, então, saber mais sobre essa cultura que os ‘mestres’ criaram, essa cultura de amor e intimidade, e como os ‘desastres’ a esmagaram.


2.    Num estudo de 1990, ele montou um laboratório, no campus da Universidade de Washington, para observar casais numa espécie de retiro "bed and breakfast".
Convidou 130 casais recém-casados ​​para passar o dia neste retiro, para assim os observar a fazer coisas normais de casais em férias: cozinhar, limpar, ouvir música, comer, conversar, conviver. 

Gottman percebeu que, durante todo o dia, os casais faziam pedidos de conexão. Por exemplo, vamos supor que ele adora pássaros e vê um pintassilgo a voar no quintal e comenta com ela: "Olha que belo pintassilgo está lá fora!". É preciso entender-se que ele não está só a comentar o pássaro, ele efetivamente está a solicitar uma resposta, um sinal, interesse, apoio dela, na esperança que haja uma conexão, mesmo que momentaneamente, sobre o pássaro.

Embora o tema "pássaro" possa parecer menor e insignificante, pode realmente revelar muito sobre a saúde do relacionamento. O marido pensou que o pássaro era suficientemente importante para trazê-lo para a conversa e a questão é se a sua esposa reconhece e respeita isso.

As pessoas que se "voltaram" para os seus parceiros, no estudo, responderam mostrando interesse e apoio na licitação. Aqueles que não o fizeram, não responderam ou responderam minimamente e continuaram a fazer o que estavam a fazer, como ver TV ou a ler o jornal. Às vezes, eles responderam com hostilidade, dizendo algo como: "Pára de me interromper, estou a ler."

Essas interações/conexões tiveram um impacto profundo no bem-estar conjugal:
  •       Os casais que se divorciaram depois dos seis anos respondiam às licitações cerca de 33% das vezes. Apenas três em cada dez das suas propostas para conexão emocional foram atendidas. 
  •        Os casais que ainda estavam juntos, após seis anos, em 87% das vezes respondiam ao pedido de conexão. Nove em cada dez vezes, responderam às necessidades emocionais do seu parceiro.

Ao observar esses tipos de interações, Gottman pode prever com 94% de certeza se os casais - hetero ou gay, rico ou pobre, sem filhos ou com filhos - se separarão, ficarão juntos e infelizes, ou ficarão juntos e felizes por muitos anos. Muito se resume ao espírito que o casal traz para o relacionamento. Será que eles trazem ‘bondade’ e generosidade; ou desprezo, críticas e hostilidade?

Segundo Gottman, "Há uma forma de estar que os ‘mestres’ têm que é: eles processam o ambiente social no sentido de o apreciar e agradecer. Constroem esta cultura de respeito e valorização propositadamente. Os ‘desastres’ processam o ambiente social direcionando o seu foco para os erros dos parceiros ".

desprezo, segundo o que apuraram, é o fator número um que separa os casais. As pessoas que estão focadas em criticar os seus parceiros perdem cerca de 50% das coisas positivas que os seus parceiros fazem, e veem negatividade onde ela não existe.
As pessoas que deliberadamente ignoram o parceiro, respondem por monossílabos e monocordicamente, ou até com hostilidade, danificam claramente o relacionamento, pois fazem o outro sentir-se inútil e invisível. As pessoas que tratam os seus parceiros com desprezo e crítica, não só matam o amor da relação, mas também reduzem a capacidade de resposta do sistema imunitário do seu parceiro.


3.    Por outro lado, outras pesquisas mostram que a ‘bondade’ e a estabilidade emocional é o mais importante preditor de satisfação e estabilidade num casamento. A ‘bondade’ faz com que cada parceiro se sinta cuidado, compreendido e valorizado. Sentem-se amados!

"A minha recompensa é tão ilimitada quanto o mar, o meu amor tão profundo e quanto mais dou a ti, mais tenho, pois ambos são infinitos”, dizia Julieta de William Shakespear.

Também assim funciona com a ‘bondade’. Há inúmeras evidencias que nos dizem que quanto mais se vivencia e se testemunha ‘bondade’, mais essas pessoas vão ser gentis e assim se entra numa espiral ascendente de ‘bondade’, amor e generosidade no relacionamento. 

Há duas maneiras de pensar sobre a ‘bondade’. Pode-se pensar nisso como um traço fixo: ou se tem ou não se tem; ou poder-se-á pensar em ‘bondade’ como um músculo. Nalgumas pessoas, o músculo é naturalmente mais forte do que noutras, mas pode-se fortalecê-lo exercitando-o. Os ‘mestres’ pensam na ‘bondade’ como um músculo e percebem que o têm de exercitar para mantê-lo em forma. Por outras palavras, eles sabem que um bom relacionamento exige muito trabalho.

Ou seja, "Se o seu parceiro expressa uma necessidade", explica Julie Gottman, "e mesmo que você esteja cansado, stressado ou distraído, o espírito generoso surge quando este faz um apelo/convite, e você se volta para ele."

Efetivamente a resposta mais fácil pode ser a de te afastares do teu parceiro e te concentrares no iPad, no teu livro ou na televisão, a murmurar "Uh huh". Mas se negligenciares pequenos momentos de conexão emocional, permites que lentamente a distância ganhe terreno no teu relacionamento. A negligência cria distância e ressentimento, pois a pessoa sente-se ignorada.

O momento mais difícil de se praticar ‘bondade’ é, naturalmente, durante uma discussão. Mas este é também o momento mais importante para seres gentil. Deixar que o desprezo e a agressão entrem em espiral, completamente fora de controle durante uma discussão, pode causar danos irreparáveis ​​num relacionamento.

No entanto, "A ‘bondade’ não significa que não expressemos a nossa raiva," explica Julie Gottman, "mas através da ‘bondade’ podemos escolher como expressar essa raiva. Você pode agredir o seu parceiro, ou pode-lhe explicar porque está magoado e irritado".

John Gottman conta que: "Os ‘desastres’ dizem coisas de maneira diferente numa discussão: ‘_Estás atrasada. O que é que se passa contigo? Estas como a tua mãe.’ Os ‘mestres’ dirão: ‘_Até me sinto mal por estar a implicar contigo sobre o atraso, e eu sei que nem tens culpa, mas é realmente irritante o facto de estares atrasada outra vez."

Para os milhões de casais atualmente juntos, casados ​​ou não - a lição da pesquisa é clara: Se pretendes ter um relacionamento saudável e estável deves praticar ‘bondade’… e muitas vezes.

É interessante perceber, que quando se pensa sobre a pratica de ‘bondade’, muitas vezes se pensa sobre pequenos atos de generosidade, como a compra de um presente, ou fazer uma massagem de vez em quando, mas na verdade, os grandes exemplos de generosidade e ‘bondade’ também podem ser construídos na própria forma de conexão com que os parceiros interagem uns com os outros no seu dia-a-dia, sem necessidade de presentes, massagens ou chocolates.

Uma forma de praticar ‘bondade’, por exemplo, é sendo generoso em relação às intenções do seu parceiro.
A partir da pesquisa dos Gottmans, percebemos que os ‘desastres’ veem negatividade no seu relacionamento, mesmo quando ela não está lá. Por exemplo, uma mulher com raiva pode assumir, por exemplo, que quando o marido deixa a tampa da sanita para cima, fê-lo deliberadamente para a irritar. Mas, na verdade, ele pode simplesmente ter-se esquecido de colocar a tampa para baixo.

Ou, por exemplo, a esposa está atrasada novamente para o jantar, e o marido assume de imediato que ela não o valoriza o suficiente, mesmo depois de ele fazer uma reserva e sair mais cedo do trabalho, para que pudessem passar uma noite romântica. Mas a esposa pode estar atrasada, porque parou numa loja para lhe comprar um presente para a sua noite especial.

"Mesmo nos relacionamentos onde as pessoas estão frustradas, quase sempre há coisas positivas a acontecer e efetivamente as pessoas tentam fazer ‘a coisa certa’.", diz o psicólogo Ty Tashiro, "Muitas vezes, o parceiro está a tentar fazer ‘a coisa certa’, mesmo que seja mal feita. Então, o que temos de apreciar é a intenção!"

Outra boa estratégia para exercer ‘bondade’ gira em torno da partilha de alegria. Um dos indicadores dos casais ‘desastre’, estudados por Gottman, foi a sua incapacidade de se conectar, mesmo quando se tratava de uma boa notícia. Por exemplo, um compartilha a boa notícia, entusiasmado, de ter tido uma promoção no trabalho e o outro responde com desinteresse, olhando para o seu relógio ou terminado a conversa com um comentário do tipo: "Isso é bom."

Assim sendo, apesar de todos nós já termos ouvimos que os parceiros devem estar lá, um para o outro, quando as coisas correm mal, a pesquisa mostra que, estar lá um para o outro, quando as coisas correm bem é realmente mais importante para a qualidade do relacionamento.


4.    Num outro estudo de 2006, a psicóloga Shelly Gable et al. trouxeram casais jovens adultos, para o laboratório, para discutir acontecimentos positivos recentes nas suas vidas. Pretendia-se perceber as reações de cada membro do casal a esses eventos. Descobriram que, em geral, os casais responderam um ao outro, a uma boa notícia de quatro maneiras diferentes, a que eles chamaram: a) passivo-destrutivo, b) ativo-destrutivo, c) construtivo-passivo e d) ativo-construtivo.

Vamos supor que um dos parceiros tinha recebido recentemente a boa notícia de que ela entrou na universidade de medicina, e diria algo como "Eu entrei na minha primeira opção, na universidade de medicina!"

Se o seu parceiro responder de forma passiva-destrutiva, ele iria ignorar o evento. Por exemplo, ele poderia dizer algo como: "Não vais acreditar no que aconteceu ontem! Ganhei uma t-shirt."
Se responder de uma maneira construtiva-passiva, ele iria reconhecer a boa notícia, mas de uma forma tímida. Uma resposta típica seria: "Isso é ótimo, querida", enquanto manda mensagens a um amigo.
No terceiro tipo de resposta, ativo-destrutivo, o parceiro diminuiria a boa notícia: "Tens a certeza que consegues? E o custo? Medicina é tão caro!!"
Finalmente, a resposta ativo-construtiva, o seu parceiro pararia o que estava a fazer e envolver-se-ia com ela: "Isso é ótimo! Parabéns! Quando foi que descobriste? Será que eles te chamam? Quais vão ser as disciplinas no primeiro semestre? "

Entre os quatro estilos de resposta, a resposta ativo-construtivo é de longe a mais adequada. Enquanto os outros estilos de resposta diminuem a alegria sentida pelo conjugue, o estilo ativo-construtivo permite que o parceiro saboreie a sua alegria e dá ao casal a oportunidade de se unir mais. Na linguagem dos Gottmans, respondendo desta forma, partilhando coisas boas do dia-a-dia um do outro, permite ao casal “voltar-se um para o outro”, em vez de se distanciaram.

Gable et al. fizeram um follow up a estes casais, dois meses mais tarde, para ver se ainda estavam juntos. Os psicólogos descobriram que, a única diferença entre os casais que estavam juntos e aqueles que se separaram, foi realmente a forma de resposta ativo-construtiva. Aqueles que mostraram interesse genuíno nas alegrias do seu parceiro eram os mais propensos a ficar juntos.

Num estudo anterior, Gable também percebeu que a resposta ativa-construtiva está relacionada com uma maior qualidade do relacionamento e mais intimidade entre o casal.

Tudo isto corrobora a ideia de que uma resposta ativo-construtiva é fundamental para relacionamentos saudáveis.


Há inúmeras razões que levam ao fracasso dos relacionamentos, mas se olharmos para o que impulsiona a deterioração de muitas relações, percebemos que existe efetivamente um colapso da ‘bondade’. Como as tensões normais de uma vida a dois acumulam com filhos, carreira, amigos, sogros, entre outras, descorando o tempo para o romance e intimidade, facilmente os casais se deixam dominar pelas queixas um do outro, do seu do dia-a-dia, e começa assim a nascer um vale que os vai separando.

Como dizia no principio do artigo, na maioria dos casamentos, os níveis de satisfação cai drasticamente nos primeiros anos juntos. Mas entre os casais que não só resistem, mas que vivem efetivamente felizes, por anos e anos, o espírito de ‘bondade’ e generosidade prevalece e pauta a sua conduta diária.

E 10 anos depois... Eu & Tu!

Se quiseres lê o artigo original aqui da revista Atlântico, de 2014, e adaptado aqui.


domingo, 3 de janeiro de 2016

"...um Ser Humano!"


"...um herói e um mártir não é um protótipo abstrato nem um modelo de perfeições, mas sim um ser humano, feito de contradições e de contrastes, fraquezas e grandezas, dado que um homem, como escreveu José Enrique Rodó, 'é muitos homens', o que quer dizer que anjos e demónios se misturam na sua personalidade de maneira intricada."


"... como prova de que é impossível chegar a conhecer de forma definitiva um ser humano, totalidade que escorrega sempre de todas as redes teóricas e racionais que tentam capturá-la." 



(Mario Vargas Llosa, in 'O Sonho do Celta')

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Ano Novo


Ano Novo
Ficção de que começa alguma coisa!
Nada começa: tudo continua.
Na fluida e incerta essência misteriosa
Da vida, flui em sombra a água nua.
Curvas do rio escondem só o movimento.
O mesmo rio flui onde se vê.
Começar só começa em pensamento.

                                   (Fernando Pessoa)