quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Laboratório do amor! Cientificamente só são preciso 2 requisitos para a relação funcionar!

Este é um tema importante, tema de muitas conversas entre amigas e amigos. E em jeito de desabafo… Há dias, enquanto bebia um chá com uma amiga, falávamos/desabafávamos e até nos conseguíamos rir de nós próprias (sabermos rir de nós e connosco ajuda-nos a reposicionar e analisar a situação com uma outra lente). 

Percebemos que na maioria dos casamentos, os níveis de satisfação cai drasticamente nos primeiros anos juntos. Mas os casais que sobrevivem juntos e vivem efetivamente felizes durante anos e anos parece que têm em comum o espírito de ‘bondade’ e generosidade.

Todos os dias, em junho, o mês do casamento mais popular do ano, cerca de 13.000 casais americanos vão dizer "Sim, eu aceito", comprometendo-se a um longo relacionamento, cheio de amizade, alegria e amor até ao fim dos seus dias.

Mas efetivamente não funciona assim. A maioria dos casamentos fracassam: ou terminando em divórcio e/ou separação ou  terminam numa relação amarga e disfuncional.
De todas as pessoas que se casam, apenas três em cada dez permanecem em casamentos felizes, saudáveis, como diz o psicólogo Ty Tashiro no seu livro "The Cience of Happily Ever After", 2014.

Os cientistas sociais começaram a estudar e observar casais nas suas vidas quotidianas, na década de 1970, em resposta a uma crise social - a taxa de divórcios atingiu valores sem precedentes. Preocupados com o impacto que estes divórcios teriam nos filhos, os psicólogos decidiram virar a sua atenção para os casais, trazendo-os para o laboratório e assim observá-los e determinar quais são os ingredientes de um relacionamento saudável e duradouro.

"Cada família infeliz foi infeliz à sua própria maneira", como dizia o russo Lev Tolstoi, em Anna Karenina (1877), ou ...os casamentos que falharam têm, em comum, algo tóxico?

Deixem-me falar-vos de alguns estudos.

1.    O psicólogo John Gottman foi um desses pesquisadores. Nas últimas quatro décadas, ele tem estudado milhares de casais, para tentar descobrir o que faz com que as relações amorosas resultem. (Se queres saber mais, vê os 4 vídeos da conferência de 2009 de John Gottman aqui)

John Gottman começou a reunir suas descobertas mais importantes em 1986, quando ele criou "The Lab Love" com o seu colega Robert Levenson, da Universidade de Washington. Gottman e Levenson trouxeram recém-casados ​​para o laboratório e observavam-os a interagir uns com os outros.

Aos casais eram colocados elétrodos e eras-lhe pedido que falassem do seu relacionamento: como se conheceram, um grande conflito que tivessem tido, e relatarem uma memória positiva. Enquanto falavam, os elétrodos mediam o fluxo de sangue, ritmo cardíaco e níveis de sudação. Posteriormente, os casais foram para casa e seis anos mais tarde, foram contactados novamente para se perceber se continuavam juntos ou não.

Dos resultados, Gottman separou os casais em dois grandes grupos, a que chamou: os ‘mestres’ e os ‘desastres’. Os ‘mestres’ ainda estavam felizes juntos depois de seis anos. Os ‘desastres’ ou se tinham separado ou estavam juntos, mas cronicamente infelizes.

Quando analisaram os dados recolhidos, Gottman et al., viram diferenças claras entre os ‘mestres’ e os ‘desastres’
Os ‘desastres’ pareciam calmos durante as entrevistas, mas o seu corpo contou uma história diferente. O ritmo cardíaco era acelerado, as glândulas sudoríparas estavam muito ativas e a pressão sanguínea era rápida.

Gottman et al. seguiram milhares de casais longitudinalmente, e perceberam que os casais mais ativos fisiologicamente, eram os casais cujas relações se deterioravam ao longo do tempo.

Mas o que é que a fisiologia tem a ver com isto? 
Os ‘desastres’ mostravam todos os sinais de excitação, parecendo estar num modo de luta ou fuga, nos seus relacionamentos. Ter uma conversa sentada ao lado de seu parceiro era sentido pelos seus corpos, como estando a enfrentar uma fera.
Mesmo quando eles falavam das facetas agradáveis ​​ou mundanas dos seus relacionamentos, eles estavam preparados para atacar e ser atacados. 

Os ‘mestres’, ao contrário, mostram baixa excitação fisiológica. Sentiam-se calmos e ligados entre si, o que se traduziu num comportamento caloroso e afetuoso, mesmo quando eles discutiam. Os ‘mestres’ criaram um clima de confiança e intimidade que lhes permitiu sentir-se emocional e fisicamente mais confortáveis, o que se refletiu nos resultados fisiológicos.

Gottman queria, então, saber mais sobre essa cultura que os ‘mestres’ criaram, essa cultura de amor e intimidade, e como os ‘desastres’ a esmagaram.


2.    Num estudo de 1990, ele montou um laboratório, no campus da Universidade de Washington, para observar casais numa espécie de retiro "bed and breakfast".
Convidou 130 casais recém-casados ​​para passar o dia neste retiro, para assim os observar a fazer coisas normais de casais em férias: cozinhar, limpar, ouvir música, comer, conversar, conviver. 

Gottman percebeu que, durante todo o dia, os casais faziam pedidos de conexão. Por exemplo, vamos supor que ele adora pássaros e vê um pintassilgo a voar no quintal e comenta com ela: "Olha que belo pintassilgo está lá fora!". É preciso entender-se que ele não está só a comentar o pássaro, ele efetivamente está a solicitar uma resposta, um sinal, interesse, apoio dela, na esperança que haja uma conexão, mesmo que momentaneamente, sobre o pássaro.

Embora o tema "pássaro" possa parecer menor e insignificante, pode realmente revelar muito sobre a saúde do relacionamento. O marido pensou que o pássaro era suficientemente importante para trazê-lo para a conversa e a questão é se a sua esposa reconhece e respeita isso.

As pessoas que se "voltaram" para os seus parceiros, no estudo, responderam mostrando interesse e apoio na licitação. Aqueles que não o fizeram, não responderam ou responderam minimamente e continuaram a fazer o que estavam a fazer, como ver TV ou a ler o jornal. Às vezes, eles responderam com hostilidade, dizendo algo como: "Pára de me interromper, estou a ler."

Essas interações/conexões tiveram um impacto profundo no bem-estar conjugal:
  •       Os casais que se divorciaram depois dos seis anos respondiam às licitações cerca de 33% das vezes. Apenas três em cada dez das suas propostas para conexão emocional foram atendidas. 
  •        Os casais que ainda estavam juntos, após seis anos, em 87% das vezes respondiam ao pedido de conexão. Nove em cada dez vezes, responderam às necessidades emocionais do seu parceiro.

Ao observar esses tipos de interações, Gottman pode prever com 94% de certeza se os casais - hetero ou gay, rico ou pobre, sem filhos ou com filhos - se separarão, ficarão juntos e infelizes, ou ficarão juntos e felizes por muitos anos. Muito se resume ao espírito que o casal traz para o relacionamento. Será que eles trazem ‘bondade’ e generosidade; ou desprezo, críticas e hostilidade?

Segundo Gottman, "Há uma forma de estar que os ‘mestres’ têm que é: eles processam o ambiente social no sentido de o apreciar e agradecer. Constroem esta cultura de respeito e valorização propositadamente. Os ‘desastres’ processam o ambiente social direcionando o seu foco para os erros dos parceiros ".

desprezo, segundo o que apuraram, é o fator número um que separa os casais. As pessoas que estão focadas em criticar os seus parceiros perdem cerca de 50% das coisas positivas que os seus parceiros fazem, e veem negatividade onde ela não existe.
As pessoas que deliberadamente ignoram o parceiro, respondem por monossílabos e monocordicamente, ou até com hostilidade, danificam claramente o relacionamento, pois fazem o outro sentir-se inútil e invisível. As pessoas que tratam os seus parceiros com desprezo e crítica, não só matam o amor da relação, mas também reduzem a capacidade de resposta do sistema imunitário do seu parceiro.


3.    Por outro lado, outras pesquisas mostram que a ‘bondade’ e a estabilidade emocional é o mais importante preditor de satisfação e estabilidade num casamento. A ‘bondade’ faz com que cada parceiro se sinta cuidado, compreendido e valorizado. Sentem-se amados!

"A minha recompensa é tão ilimitada quanto o mar, o meu amor tão profundo e quanto mais dou a ti, mais tenho, pois ambos são infinitos”, dizia Julieta de William Shakespear.

Também assim funciona com a ‘bondade’. Há inúmeras evidencias que nos dizem que quanto mais se vivencia e se testemunha ‘bondade’, mais essas pessoas vão ser gentis e assim se entra numa espiral ascendente de ‘bondade’, amor e generosidade no relacionamento. 

Há duas maneiras de pensar sobre a ‘bondade’. Pode-se pensar nisso como um traço fixo: ou se tem ou não se tem; ou poder-se-á pensar em ‘bondade’ como um músculo. Nalgumas pessoas, o músculo é naturalmente mais forte do que noutras, mas pode-se fortalecê-lo exercitando-o. Os ‘mestres’ pensam na ‘bondade’ como um músculo e percebem que o têm de exercitar para mantê-lo em forma. Por outras palavras, eles sabem que um bom relacionamento exige muito trabalho.

Ou seja, "Se o seu parceiro expressa uma necessidade", explica Julie Gottman, "e mesmo que você esteja cansado, stressado ou distraído, o espírito generoso surge quando este faz um apelo/convite, e você se volta para ele."

Efetivamente a resposta mais fácil pode ser a de te afastares do teu parceiro e te concentrares no iPad, no teu livro ou na televisão, a murmurar "Uh huh". Mas se negligenciares pequenos momentos de conexão emocional, permites que lentamente a distância ganhe terreno no teu relacionamento. A negligência cria distância e ressentimento, pois a pessoa sente-se ignorada.

O momento mais difícil de se praticar ‘bondade’ é, naturalmente, durante uma discussão. Mas este é também o momento mais importante para seres gentil. Deixar que o desprezo e a agressão entrem em espiral, completamente fora de controle durante uma discussão, pode causar danos irreparáveis ​​num relacionamento.

No entanto, "A ‘bondade’ não significa que não expressemos a nossa raiva," explica Julie Gottman, "mas através da ‘bondade’ podemos escolher como expressar essa raiva. Você pode agredir o seu parceiro, ou pode-lhe explicar porque está magoado e irritado".

John Gottman conta que: "Os ‘desastres’ dizem coisas de maneira diferente numa discussão: ‘_Estás atrasada. O que é que se passa contigo? Estas como a tua mãe.’ Os ‘mestres’ dirão: ‘_Até me sinto mal por estar a implicar contigo sobre o atraso, e eu sei que nem tens culpa, mas é realmente irritante o facto de estares atrasada outra vez."

Para os milhões de casais atualmente juntos, casados ​​ou não - a lição da pesquisa é clara: Se pretendes ter um relacionamento saudável e estável deves praticar ‘bondade’… e muitas vezes.

É interessante perceber, que quando se pensa sobre a pratica de ‘bondade’, muitas vezes se pensa sobre pequenos atos de generosidade, como a compra de um presente, ou fazer uma massagem de vez em quando, mas na verdade, os grandes exemplos de generosidade e ‘bondade’ também podem ser construídos na própria forma de conexão com que os parceiros interagem uns com os outros no seu dia-a-dia, sem necessidade de presentes, massagens ou chocolates.

Uma forma de praticar ‘bondade’, por exemplo, é sendo generoso em relação às intenções do seu parceiro.
A partir da pesquisa dos Gottmans, percebemos que os ‘desastres’ veem negatividade no seu relacionamento, mesmo quando ela não está lá. Por exemplo, uma mulher com raiva pode assumir, por exemplo, que quando o marido deixa a tampa da sanita para cima, fê-lo deliberadamente para a irritar. Mas, na verdade, ele pode simplesmente ter-se esquecido de colocar a tampa para baixo.

Ou, por exemplo, a esposa está atrasada novamente para o jantar, e o marido assume de imediato que ela não o valoriza o suficiente, mesmo depois de ele fazer uma reserva e sair mais cedo do trabalho, para que pudessem passar uma noite romântica. Mas a esposa pode estar atrasada, porque parou numa loja para lhe comprar um presente para a sua noite especial.

"Mesmo nos relacionamentos onde as pessoas estão frustradas, quase sempre há coisas positivas a acontecer e efetivamente as pessoas tentam fazer ‘a coisa certa’.", diz o psicólogo Ty Tashiro, "Muitas vezes, o parceiro está a tentar fazer ‘a coisa certa’, mesmo que seja mal feita. Então, o que temos de apreciar é a intenção!"

Outra boa estratégia para exercer ‘bondade’ gira em torno da partilha de alegria. Um dos indicadores dos casais ‘desastre’, estudados por Gottman, foi a sua incapacidade de se conectar, mesmo quando se tratava de uma boa notícia. Por exemplo, um compartilha a boa notícia, entusiasmado, de ter tido uma promoção no trabalho e o outro responde com desinteresse, olhando para o seu relógio ou terminado a conversa com um comentário do tipo: "Isso é bom."

Assim sendo, apesar de todos nós já termos ouvimos que os parceiros devem estar lá, um para o outro, quando as coisas correm mal, a pesquisa mostra que, estar lá um para o outro, quando as coisas correm bem é realmente mais importante para a qualidade do relacionamento.


4.    Num outro estudo de 2006, a psicóloga Shelly Gable et al. trouxeram casais jovens adultos, para o laboratório, para discutir acontecimentos positivos recentes nas suas vidas. Pretendia-se perceber as reações de cada membro do casal a esses eventos. Descobriram que, em geral, os casais responderam um ao outro, a uma boa notícia de quatro maneiras diferentes, a que eles chamaram: a) passivo-destrutivo, b) ativo-destrutivo, c) construtivo-passivo e d) ativo-construtivo.

Vamos supor que um dos parceiros tinha recebido recentemente a boa notícia de que ela entrou na universidade de medicina, e diria algo como "Eu entrei na minha primeira opção, na universidade de medicina!"

Se o seu parceiro responder de forma passiva-destrutiva, ele iria ignorar o evento. Por exemplo, ele poderia dizer algo como: "Não vais acreditar no que aconteceu ontem! Ganhei uma t-shirt."
Se responder de uma maneira construtiva-passiva, ele iria reconhecer a boa notícia, mas de uma forma tímida. Uma resposta típica seria: "Isso é ótimo, querida", enquanto manda mensagens a um amigo.
No terceiro tipo de resposta, ativo-destrutivo, o parceiro diminuiria a boa notícia: "Tens a certeza que consegues? E o custo? Medicina é tão caro!!"
Finalmente, a resposta ativo-construtiva, o seu parceiro pararia o que estava a fazer e envolver-se-ia com ela: "Isso é ótimo! Parabéns! Quando foi que descobriste? Será que eles te chamam? Quais vão ser as disciplinas no primeiro semestre? "

Entre os quatro estilos de resposta, a resposta ativo-construtivo é de longe a mais adequada. Enquanto os outros estilos de resposta diminuem a alegria sentida pelo conjugue, o estilo ativo-construtivo permite que o parceiro saboreie a sua alegria e dá ao casal a oportunidade de se unir mais. Na linguagem dos Gottmans, respondendo desta forma, partilhando coisas boas do dia-a-dia um do outro, permite ao casal “voltar-se um para o outro”, em vez de se distanciaram.

Gable et al. fizeram um follow up a estes casais, dois meses mais tarde, para ver se ainda estavam juntos. Os psicólogos descobriram que, a única diferença entre os casais que estavam juntos e aqueles que se separaram, foi realmente a forma de resposta ativo-construtiva. Aqueles que mostraram interesse genuíno nas alegrias do seu parceiro eram os mais propensos a ficar juntos.

Num estudo anterior, Gable também percebeu que a resposta ativa-construtiva está relacionada com uma maior qualidade do relacionamento e mais intimidade entre o casal.

Tudo isto corrobora a ideia de que uma resposta ativo-construtiva é fundamental para relacionamentos saudáveis.


Há inúmeras razões que levam ao fracasso dos relacionamentos, mas se olharmos para o que impulsiona a deterioração de muitas relações, percebemos que existe efetivamente um colapso da ‘bondade’. Como as tensões normais de uma vida a dois acumulam com filhos, carreira, amigos, sogros, entre outras, descorando o tempo para o romance e intimidade, facilmente os casais se deixam dominar pelas queixas um do outro, do seu do dia-a-dia, e começa assim a nascer um vale que os vai separando.

Como dizia no principio do artigo, na maioria dos casamentos, os níveis de satisfação cai drasticamente nos primeiros anos juntos. Mas entre os casais que não só resistem, mas que vivem efetivamente felizes, por anos e anos, o espírito de ‘bondade’ e generosidade prevalece e pauta a sua conduta diária.

E 10 anos depois... Eu & Tu!

Se quiseres lê o artigo original aqui da revista Atlântico, de 2014, e adaptado aqui.


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